terça-feira, 5 de maio de 2009

A ENCHENTE E A SAÚDE MENTAL EM TERESINA

Final do ano passado Santa Catarina enfrentava o dilúvio. Muitas vítimas fatais e desabrigados. Lembro de ter visto na televisão um psiquiatra da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) falando sobre como a saúde mental destas pessoas estava em a relação a perdas tão severas e a capacidade de reconstrução dos danos emocionais e materiais. Não recordo-me com precisão se a instituição prestou algum serviço de intervenção àquela população. Mas aqui em Teresina neste momento que o governo do Estado e município decretaram calamidade pública, observo a mobilização das pessoas, governo e igreja católica no sentido de prover as necessidades materiais imediatas das pessoas desabrigadas, vários postos de arrecadação são montados para recebimentos de roupas, cobertores, alimentos e remédios.
Fico a imaginar a condição psíquica de centenas de pacientes e familiares com as difículdades de locomoção para os serviços psiquiátricos, já que a cidade praticamente está parada. Tenho quase certeza que esses serviços existentes aqui em Teresina não montaram equipes de emergência, visita a abrigos, domiciliar, etc.
Infelizmente grupos de apoio como o Ninho são tão pequenos e sem estrutura que num momento desses até saberíamos como, mas não temos como dar o apoio necessário a pessoas que vivem e convivem com transtorno mental e estão expostas ao estresse da situação de alagados.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

BIPOLAR PRODUTIVO, JÁ!!!!!!!!!!!

Lá estou eu sentada diante das chefes das minhas chefes. Uma delas leva a mão na cabeça, nem imagino se há gravidade no gesto. Se tem alguma coisa comigo. Mas tento parecer normal, "cara de pateta, burra e pedinte". Não consigo. Dez anos de UFPI para quê? Para continuar oprimida?
Então a chefe principal, que sempre foi minha "considerada" demonstrou que não gostou do que fiz na quizila do ano passado, e do início deste ano quando a vice direção, porque adjunto não é titular, enviou um relatório para a regional mentindo a meu respeito, me diagnosticando como estressada, que não deixava meu "problema de saúde em casa". Mentiu, denegriu minha imagem como profissional e eu tenho como provar. Fiz uma exposição de motivos para o seretário de educação, meu ex professor, com quem aprendi Gramsci e Habermas. Pedia sindicância, processo, pena, para que não acontecesse mais, o que considero discriminação explícita com pessoa que vive com transtorno mental.
Então, um ano depois, eu estou convaslecendo mais uma vez de uma crise aguda, recuperando atividades prazeirosas, sofrendo com trocas e retrocas de medicação e terapias dolorosas e cansativas, de efeito "homeopático". Sem tirar atestado da maternidade ou da vida, né? Volto de mais quinze dias de atestado médico e já estou às voltas com a "compreensão" destes normais, bons cristãos, participantes de encontros de casais com Cristo, comungando em toda missa e se benzendo antes de entrar na escola. O secretário deu sua ordem, a chefe principal tem que me tirar da sala de aula, para o bem da minha saúde. E o julgamento dos fatos? Os chefes normais livram-se da professora "doente" e fica tudo bem para o tranquilo, inoperante e ninguém liga Serviço Público. Nada acontece a caluniadora. Colega, não diagnosticada. Irei entulhar mais uma sala de ASPONE? Sinto calafrios na minha dignidade. Me senti o cara do Kafka que virou barata. Ou aquele outro personagem do Hesse de Lobo da Estepe. Fazer cinquenta anos e sair para dançar o absurdo da vida.
Explico para as chefes, que transtorno mental é como uma sinusite, os sintomas ficam em remissão até você tomar uma chuva, enfrentar umidade, eles podem aparecer. No nosso caso, podem ocorrer quando acontecem situações estressantes externas. Meu ponto de vista pode está
equivocado pela a maneira que vejo e percebo a realidade, diferente dessas pessoas. Se alguém mentiu e te prejudicou de algum modo no trabalho, sendo seu superior, se caracteriza assédio moral no trabalho. Aqui em Teresina parece que não há jurisdição a esse respeito. Não tenho tempo e nem saúde para andar atrás dessa justiça morosa.
Torcer para não adoecer e resistir. BIPOLAR PRODUTIVO, JÁ!!!!!!!!!!!!!!!!!

sábado, 2 de maio de 2009

RIO POTY E AS SUICIDAS

O rio Poty está tranbordando, já deixou pessoas ilhadas, resgatadas por bombeiros. Suas águas escuras e correntes atraiu a menos de três semanas uma moça que se atirou da ponte perto do Tancredo Neves, cedo da manhã. Transuentes a tiraram da água antes do corpo de bombeiros. Meio dia a notícia estava em telejornal popular. O apresentador esbaforido perguntava pela mulher, que seus repórteres não conseguiram nenhuma imagem. E as informações eram imprecisas, esta teria sido levada a um hospital.
Hoje dois jornais locais estamparam manchete sobre mulher encontrada viva após 10 horas de ter se jogado ponte abaixo, diante dos familiares. Um dos jornais, coloca acima da manchete: DEPRESSÃO e que depois de resgatada, a senhora identificada, com nome completo, estaria sido internada em hospital particular.
Faço a quem possa me responder as perguntas: que hospital público ou privado tem um serviço de atendimento para uma pessoa que acaba de tentar um suicídio? Hospital psiquiátrico? Só temos dois: Areolino de Abreu ou Meduna. Não há diferença de tratamento em nenhum caso. Tentar morrer e depois cair num manicômio. É passar pelo inferno em vida. Hospital Geral? Que serviço especializado as autoridades em saúde pública em Teresina pensam em executar? Onde estão os números de notificação de doenças não transmissíveis que se possa incluir o suícidio? Todo mês se registra casos de tentativas de suicídios na cidade? E os suicídios consumados? A que transtorno mental ele estaria mesmo associado na maioria dos casos?
As autoridades teresinenses esqueceram um pouco a dengue, porque se falava o tempo todo nacionalmente. Agora é a gripe A. Dizem que o Piauí está preparado.
Cá estamos perdidos numa "floresta de homens doidos" ou apenas observando e esperando a nossa vez de adentrar as casas verdes da cidade.
A FLORESTA DOS HOMENS DOIDOS, Ivan Jaf, ed. Scipione, 1993

terça-feira, 28 de abril de 2009

UM NOVO LUGAR SOCIAL


Por mais de duzentos anos, a relação que a sociedade ocidental manteve com as pessoas em sofrimento psíquico foi mais ou menos a mesma: longas e intermináveis internações em hospitais, caracterizados pelo abandono ou pelos atos de violência. O conceito de alienação mental (assim como suas derivações posteriores, doenças e transtorno mental) implicou atitudes sociais negativas, de medo e rejeição, devido às concepções deles decorrentes, tais como a periculosidade, incapacidade, irracionalidade, sempre estigmatizantes e discrinatórias.

Muitos milhares de pessoas morreram em hospitais psiquiátricos em todo mundo. E, apesar das denúncias, das lutas e das práticas inovadoras, ainda existem muitos óbitos em hospitais psiquiátricos e muitas outras situações de violência. Em agosto de 2006, a Corte Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA) condenou o Estado brasileiro pela morte de Damião Ximenes, ocorrida em uma clínica psiqiátrica da cidade de Sobral (Ceará) em 1999.

[...] o quadro só começou a mudar no final da Segunda Grande Guerra, quando a humanidade percebeu as atrocidades que os homens preticavam uns contra os outros e, se deu conta de que atos absolutamente iguais àqueles praticados durante a segunda guerra eram habitualmente realizados contra os "doentes mentais" em instituições que em nada se diferenciavam dos campos de concentração. Basaglia (2005) resumiu de forma decisiva e reveladora esta condição ao se referir aos "crimes da paz" praticados em nome da ciência, da ordem e da razão.

E, é exatamente por causa desta postura radicalmente crítica quanto à farsa de tais instituições que se denominam terapêuticas, que a experiência italiana é, certamente, a mais viva e atual dentre todas as experiências internacionais que visitamos. Em 13 de maio de 1978, o Parlamento Italiano aprovou a Lei 180, que reorganizou o modelo o modelo o modelo assistencial às pessoas em sofrimento mental no país.

A Lei Basaglia como ficou conhecida, determinou o fim dos hospitais psiquiátricos e possibilitou a abertura das condições legais para a construção de um novo cenário assistencial e político. A data da aprovação desta lei serviu de inspiração para que fosse instittído no Brasil o Dia Nacional da Luta Antimanicomial que desde 1988, passou a ser comemorado no dia 18 do mesmo mês de maio.


Paulo Amarante

Saúde Mental e atenção psicossocial. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2007

terça-feira, 21 de abril de 2009

NO CAMINHO TIVE UMA CRISE...




No dia não comemorado do aniversário do Sanatório Meduna, aniversário de setenta anos da tia Inês, avó de A. meu sobrinho, vou buscá-lo de alta, depois de 22 dias de internação. Eu, outro tio e a mãe, zelosa, que lhe fez visita todos os dias.


Meu olhar acompanha rápido o cotidiano do manicômio, pacientes choram para ir embora, outros pedem lembranças, cigarros, brigam por um toco deles. Outros reclamam a suas mães, sentem sintomas de outras doenças, querem mudar de pavilhão, deixar um mais agitado. Uns têm visitas, outros não.


As instalações são velhas, paredes rachadas, lâmpadas queimadas (meu sobrinho relata que o quarto estava no escuro há cinco dias). O posto de enfermagem é um lugar degradante, empoeirado, parede rachada, sem cor e cheia de alguns cartazes velhos, janelas velhas e sujas. Neste lugar atendem médicos, enfermeiros, assistentes sociais.


Lembro de um encontro rápido com seu idealizador Clidenor Freitas num seminário sobre saúde mental em 1997. Ele olhou para mim e comentou que o Meduna dava certo, eu era o exemplo, porque um dia estive lá. No prontuário do meu sobrinho o psiquiatra escreveu, depois de 22 dias de haloperidol, prometazina, fenobarbital e diazepan: "paciente com voz lenta e baixa, discurso coerente". No dia da internação dizia que estava no natal, era emissário de Cristo para uma tal de missão final e depois falava em dinheiro. O hospital psiquiátrico com a internação integral, em acomodações desconfortáveis ainda tira do surto. Lembro novamente de Clidenor e como era empreendedor, talvez se vivo fosse, transformasse seu "animal social" em uma pensão protegida, sua empresa em uma fundação qualquer coisa com ajuda internacional e tudo. Redesenhasse o modelo de atendimento ao ideário da Reforma, desse cor aquelas paredes e perspectivas de recontratualidade social para os milhares de crônicos que se revesam nos leitos mantidos pessimamente pelo SUS e leria toda uma literatura produzida por pessoas que vivem e convivem com transtorno mental, além das trezentas edições em línguas diferentes de Dom Quixote que manteve em sua biblioteca.

CANTO DOS MALDITOS: Sanatório Meduna faz 55 anos


O hospital, inaugurado em 1954, revoluciona o tratamento psiquiátrico no Nordeste.


Dez anos depois de iniciada a sua construção, foi inaugurado, em 21 de abril de 1954, o Sanatório Meduna, que inovou o tratamento psiquiátrico no Nordeste. O hospital foi construído pelo médico Clidenor de Freitas Santos, um revolucionário da psiquiatria no Piauí. Quando assumiu a direção do hospital Psiquiátrico do Piauí (Areolino de Abreu), onde encontrou os doentes mentais cobertos de ferro, Clidenor os enfilerou e foi com eles até a rua depositar ao sol 1.450 quilos de ferro. O Meduna recebeu este nome em homenagem a Ladislau Von Meduna, médico húngaro que descobriu o tratamento da loucura pelo cardiazol. O Sanatório foi construído durante dez anos, com oito pavilhões, dois pátios, um edificio com dois andares e 120 leitos. Câmara Cascudo comparou a sua arquitetura a um castelo medieval. Na entrada do hospital, Clidenou mandou erigir uma estátua do lendário Dom Quixote.

Zózimo Tavares. 100 Fatos do Piauí no Século 20. Teresina: Halley,2000.

120p.ilust.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA NA CRISE II

Uma amiga generosa se entristece e me pergunta se não é possível evitar as crises. As recaídas como dizem os terapeutas. Talvez se estivermos sempre protegidos dos fatores estressores externos. Psicóticos da bolha de plástico. Estaríamos privados de todas as emoções do mundo. Ruins, mas também as boas. Universidade, casamento, filhos, amigos, pessoas que nos amam e pessoas que nos odeiam, igualmente precisaríamos nos proteger delas.
Não, viver com transtorno mental é viver em altos e baixos. Ser inteligente, aproveitar muito bem o momento de euforia, guardando alguma coisa para fase depressiva. No momento de desordem mental intenso, do sofrimento psiquíco materializado, não entrar em desespero. É só mais uma crise. Mas você sabe, e é o que desestimula, que o processo para remissão dos sintomas é árduo e doloroso. Revisão de medicação, terapias formais ou informais, você precisa delas. Somente a medicação não resolve. A coragem para buscá-las são minados pelos sintomas e o cansaço da busca permanente para vencer a doença.
A amada amiga, tem parente psicótico e não entende. A família não entende. Mantém seus "diferentes" no quarto com janelas de vidro "windows" ou mandam para a vida no campo, numa cidadezinha do interior.
Então você reage... chega ao banco com um boleto para pagar e vê uma fila enorme: se dirige ao caixa especial para gestante, idosos e pessoas com criança no colo e fala que está numa crise psicótica, mostra atestado médico. Observa o estranhamento do caixa. E é atendida com prioridade. Jamais sua ansiedade suportaria aquela fila.

PSIQUIATRIA SEM HOSPÍCIO

POR UMA CLÍNICA DA REFORMA PSIQUIÁTRICA: COM SUBJETIVIDADE, MEDICAÇÃO COM MENOS EFEITOS COLATERAIS E MAIOR PODER DE RESOLUTIVIDADE ASSOCIADA A PRÁTICAS INTEGRATIVAS E COMPLEMENTARES.